O meu irmão com trissomia21

“O meu irmão”
Romance com protagonista deficiente

“O Meu irmão”, o romance prémio Leya 2014. O autor é Afonso Reis Cabral, jovem escritor, 24 anos, trineto do escritor Eça de Queiroz.
Nas páginas deste romance cruzei-me com sentimentos que são sentimentos meus. Com incertezas que são incertezas minhas.
A narrativa desenvolve episódios da vida de dois irmãos, um deles com Trissomia21, ou Síndrome de Down. Um jovem com deficiência, com comportamentos e entendimento de criança. Sem autonomia para uma vida independente.

O relacionamento entre os dois irmãos está marcado pela dedicação. Pela amizade e afectividade. Também por momentos de irritação, de saturação e cansaço. Também com episódios de grande violência e até de eventual crime. Há momentos de desencontro, porque o irmão com Trissomia21 não compreende e deixa-se enredar obsessivamente por situações desastradas.
O júri do Prémio Leya, na sua declaração, observou que o livro “trata de um tema delicado”, que “a realidade é trabalhada de uma forma objectiva e com a violência que estas situações humanas podem desenvolver, dando um retrato social, obrigando a uma leitura que nos confronta com a dificuldade de um mundo impiedoso”.
É uma narrativa em primeira pessoa, até parece uma autobiografia, orientada pela ficção.
Senti-me presente nas páginas deste romance, também participante nesta história.
Repare-se nesta passagem, o narrador a dar a palavra ao seu pai: “Quando se é velho e pai de um deficiente, aprende-se a lidar com o medo. Quando eu for ainda mais velho, que será feito do meu filho? E quando eu morrer? E quando ele se tornar velho e eu já não existir? Este medo será com certeza constituído por muitos outros”.
E do narrador: “Os meus pais já haviam ultrapassado os oitenta anos e o medo acompanhava-os no quotidiano, não o medo por si, mas o medo pelo Miguel”, porque “só o Miguel os preocupava”.
O Miguel é o protagonista com Trissomia21, já próximo dos 50 anos, mas criança, com pouco entendimento, deficiente mental.
E o irmão com o estatuto de narrador leva-nos a conhecer os pais, vidas de dedicação a um filho com deficiência.
O Miguel deficiente é do tempo em que ainda não havia escola inclusiva. Naquele tempo, os meninos deficientes ficavam por casa ou iam passar umas horas nas instituições, onde houvesse instituições para crianças com deficiência. No romance, o Miguel frequentava um colégio de uma instituição. No Porto, ao tempo, já havia colégio para deficientes. Ao mesmo tempo, o narrador seu irmão frequentava uma escola regular.
O Miguel do romance tem muitos comportamentos que conheço no meu Tiago, como o ranger os dentes. O rilhar de dentes pode significar momentos de agitação, de ansiedade. Como estas crianças são de vocabulário pobre, não conseguem verbalizar suas emoções. O rilhar de dentes é expressão de emoções vividas na pessoa.
O Miguel tinha fúrias. O Tiago também tem fúrias, que são emoções não controladas pela mente e sem vocabulário para se expressarem.
O Miguel ainda usava algum vocabulário para situações elementares, mas mal pronunciado, desarticulado, enrodilhado.
O Miguel conversava sozinho, em lengalengas com interlocutor imaginado, com gestos e tonalidades a significar emoções. Também conheço abundante emissão de sons que exprimem boa disposição, comunicação, ligações ao mundo, emoções vivenciadas pelo próprio.
O Miguel era ingénuo, inocente, um “anjo” com energias para cativar, como o Tiago.
Depois da partida dos pais, aos 80 anos, é o narrador que avança perante as irmãs:
“Eu fico com o Miguel”.
Decisão que o obrigou a mudar de cidade, de profissão, de hábitos de vida, de amigos para ser companheiro do seu irmão Miguel. Entrega-se com dedicação, assume obrigações apertadas porque tem ao seu cuidado um irmão com incapacidade para se orientar na vida por si mesmo.
“O meu irmão”, um romance para conhecer outras vidas que andam ao nosso lado.

Manuel Miranda

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