Comportamentos de autismo

No gabinete do médico das consultas do Transtorno do Espectro do Autismo, a criança estendida no chão sussurrava uns sons monocórdicos para si mesmo e batia umas flautas, sempre as mesmas flautas desde há muito, mas nada de melodias musicais. As mesmas flautas para as mesmas ocupações, sem as esquecer e delas se saturar. É nisso e com isso que se ocupa, alheia aos outros e ao mundo que a rodeia, num ritual repetitivo, virada para si mesmo. Se lhe apresentam outros brinquedos ou a chamam para outras ocupações, reage com gestos bruscos, esbraceja, faz birras, esperneia, grita na defesa da continuidade da sua ocupação, do seu isolamento.

Foi nessa consulta que o Dr. Frederico me falou de um livro para melhor compreender o autismo.

“O estranho caso do Cão Morto”, romance do escritor Mark Haddon, obra vencedora de categoria de ficção literária e livro juvenil do ano 2003, na Inglaterra.

O autor trabalhou com crianças autistas, que tão extraordinariamente deixa compreender pelo protagonista Christopfer, narrador, criança de 15 que sofre de autismo. Uma narrativa em primeira pessoa.

Por Christopher podemos compreender outros autistas e traçar-lhes traços comuns. Christopher “conhecia de cor todos os países do mundo, bem como as suas capitais, e todos os números primos até 7507”, mas “sozinho nunca tinha ido mais longe do que ao final da sua rua”, até ao dia em que encontrou o cão da sua vizinha morto, acontecimento que dá título ao romance.

Um dia viu quatro carros amarelos, o que fez ter um “Dia Negro”, por isso não comeu nada ao almoço e ficou todo o dia sentado no canto da sala, a ler o seu manual para o exame de matemática, sem “ falar com ninguém, sentado, a gemer, o que o fazia calmo e seguro”.

Com rejeições obsessivas por umas cores e preferência por outras, sem deixar  compreender as razões.

Com uma rara memória visual, fotográfica, gravava os acontecimentos como sequências de um filme, com dotes excepcionais para a Matemática e para as Ciências, mas com grandes dificuldades em compreender as pessoas, em se relacionar e conviver, mesmo com aqueles com quem vivia e de quem dependia, o pai e a mãe.

Não se ocupava nem brincava como outros da mesma idade.

Frequentou uma escola especial, uma escola para crianças como ele. Não nos deixa boa imagem da escola que frequentou para alunos com necessidades educativas. Os estigmas marcam referências a essa escola, ele mesmo os utiliza com “os meus colegas eram todos burros”. Mas deixa-nos boa relação com a professora que o acompanhava, em quem acreditava e refere-a com simpatia. Procurava fazer como ela recomendava, uma dependência que é ausência de autonomia.

Deixa-nos acontecimentos de inadaptação. Passava dias isolado, metido nas suas preferências, sem interagir com o mundo.

Detestava ser tocado. Muito menos agarrado por alguém. Quando agarrado, reagia com brusquidão ou com violência, como quando agrediu o polícia que o agarrou para o levantar do chão, porque o polícia achava mais respeitoso e de carinho ter a criança de pé a responder-lhe.

Narra com excessos de pormenores, pormenores insignificantes para os acontecimentos narrados.

Muito organizado, cada coisa no seu lugar, tudo muito arrumadinho. O seu horário levado ao excesso do pormenor de minutos. Tudo nele era organização e qualquer mudança o perturbava.

Reparava em todas as coisas. Gestos, tom da voz, cores, movimentos, tudo recebia e o seu cérebro como que entrava em parafuso pelo excesso de informação a entrar.

Os autistas captam tudo, dotados de uma forte e excepcional capacidade dos sentidos, estão sempre a receber informação. Seja visual, auditiva, táctil e nem os odores e os paladares os deixam indiferentes, sensações causadoras de ansiedades, pelas dificuldades delas se abstraírem.

No mundo dos autistas não há autistas iguais, mas há traços e comportamentos comuns.

A ansiedade é um traço comum que os caracteriza, também a dificuldade de relacionamento com o mundo.

O gesticular e o sacudir as mãos em gestos de braços no ar, os gritos e as birras frequentes por motivos pequenos e imprevistos, sem traços frequentes em muitos.

Christopfer “conhecia de cor todos os países do mundo e as suas capitais”.

Conheço um que com os seus conhecimentos das auto-estradas de Portugal deixa os pais embevecidos. Outro que sabia em pormenor as batalhas das guerras mundiais, os generais que comandaram exércitos e as estratégias militares que os tornaram célebres para ficarem na história. Sabia tal como aprendeu. As causas e as consequências, o antes e o depois não os relacionava, sabia para repetir, não para tirar conclusões, ilações, para interpretar ou justificar. Conhecimentos, mas sem os relacionar e sem os classificar.

Também não se relacionam com outras pessoas, nem com colegas. Vivem no seu isolamento, alguns nos seus conhecimentos.

 

Manuel Miranda

miranda.manel@gmail.com

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