Monólogo do autista

2 de abril – Dia Mundial do Autismo

Monólogo do autista

Mas tanta!… tanta gente de olhares em mim!… Eu sei que sou diferente… Que ando na vida para mim voltado, de todos os outros desencontrado!…
Autista!… é o que de mim dizem. E outros que sou de perturbações do espectro do autismo. Outros ainda mais refinados acrescentam e dizem que sou de perturbações neuropsiquiátricas, a que também chamam “disfunções do desenvolvimento do sistema nervoso central multifactoriais, assim dito e classificado com palavras eruditas, para serem por poucos compreendidas.
Eu sou autista e nada mais que isso!…

Para mim mesmo sempre virado!… Talvez inteligente, mas sempre ausente!… Com mutismo de linguagem, sem comunicação de relação, indiferente e de todos os outros desconfiado e sempre desses afastado, de palrar de papagaio com inversões pronominais, de palavras muito literal, bem encostadinho ao real, com uso de abundantes negativas, com o não em toda a ocasião, numa permanente ecolalia, como que possuído por uma obsessiva mania. Muito sensível aos estímulos, sejam eles os do sentir ou cheirar, de ouvir ou de ver, que até o simples tossir me faz tremer.

Gosto de estar só, em mim metido. Bem longe das confusões e das multidões, como abandonado. Detesto as concentrações, sempre em mim retirado, dos outros bem afastado, num silêncio continuado, como perdido e desorientado.
Eu sou de todos os outros diferente!…
Como eu não há outro igual!…
Autista, só em mim, como que em mim perdido, sempre dos outros desconfiado.
Detesto as companhias. Dos amigos fujo como deles tivesse medo. Sempre de mim mesmo inseguro. No mundo, quero que tudo seja sempre igual.
Os meus dedos sempre a mexer, como a procurar onde me agarrar. De cabeça a balancear, para a frente e para trás, em tiques continuados, num maneirismo rotinado, assim sou eu como máquina exageradamente afinada.

Sempre de mim inseguro. Em todo o sítio vejo escuridão e nada vejo onde me possa esconder. Falo só para mim, sem ninguém para me entender, com uma grande ansiedade sempre em mim presente.
Na minha cabeça nada está parado, tudo anda num ir e voltar.
Todos me olham, de olhos em mim fixados. Nos olhares deles eu os vejo de mim desconfiados, só porque eu deles diferente sou.
Ando de aqui para ali e de ali para aqui, sempre em passo apressado. Por isso tanta gente para mim olha com olhar incomodado. E quando os vejo em mim fixados, mais me sinto a eles desajustado.
E num riso condescendente, neles vejo o que de mim dizem, que o meu rir é inadequado, ou mesmo inapropriado, de um demente acabado.
Não gosto que com a mão me venham tocar. Longe deles me sinto melhor, sempre com vontade de fugir e me esconder, que ninguém me venha incomodar!…
Nas minhas mãos nada está parado, tudo gira em movimentos miudinhos, com exagero organizados.
Se me dá para ser desarrumado, logo disso dizem ser de autismo isso sinal, a outros autistas ser igual.
Assim ando eu por outros classificado. Se sou inquieto e agitado, por isso me dão como autista pintado
Se me aguento quieto e sossegado, disso dizem ser do mundo ausente, um autista ao mundo indiferente.
Se repito o que digo e o que penso, logo de mim dizem que as repetições são assim como corrimões ao que me seguro e agarro nas minhas perturbações.
Hiperactivo ou sempre parado, sou aquilo que sou, autista!… diferente!… a mim sempre igual!…
Dizem de mim que não falo, que ando no mundo sempre calado. Mas se muito falo, disso sou criticado, e de mim dizem que digo sempre o mesmo, como fosse um CD gravado, como um eco que ao mundo vai e ao mesmo sítio volta, ao que, por serem sempre sons iguais, a isso chamam de ecolalia.
Mas deixem-me dessa mania!… se tudo de mim querem saber, para com sabedoria me classificar, deixem-me como sou assim ficar.
Não gosto de colo, nem de afagos. E com isso a minha mãe sei que dei dias muito amargos!…
Dos outros nada quero ouvir, como surdo ando eu, e como mudo no mundo estou. Neste mundo de palavras mentirosas, autista a mim sempre igual, prefiro estar calado a falar sem antes no que digo pensar!…
O que tenho para mim chega. Não quero nada que dos outros me venha. Deles estou cheio, já não os posso suportar.
Tudo me incomoda. O que ouço e sinto, o que vejo e penso me enchem de raiva e de confusão, que até faço que de mim fujam com medo da minha agitação.
Também foi assim que descobri que pela raiva por mim manifestada me deixam só e quieto, como antes estava.
Tenho pouca habilidade para coisas fazer, ora parto ou desarrumo, escondo ou esqueço o que me é dado fazer. Também foi assim que descobri que me deixam só e quieto, como que a dizer: é melhor que esteja assim!…
Sou um desadaptado, por isso todos me querem longe, como indesejado.
Como um inútil para a vida, uma pensão mínima me é mandada, e essa como que chorada, como por favor dada.
Assim é tratado um autista, por outros avaliado!…
E é por isso que por meus pais para sempre sou carregado.
Dizem de mim que nada aprendo e que do que me ensinam pouco adianto.
Eu não os compreendo!…
Também eles a mim não me compreendem, mas sei que de mim dizem coisas que eles mesmos não entendem.
De mim falam com tanta sabedoria, quando eu só lhes peço que me aceitem com mais simpatia!…

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