Dia internacional das Pessoas com deficiência

No dia internacional das Pessoas com Deficiência
3 de dezembro
Jorge, o filho de Camilo Castelo Branco

Depois de me encontrar como pai de uma criança especial, o Tiago, começou a pairar em mim a vontade de melhor conhecer a vida de Camilo Castelo Branco, Camilo como pai de uma criança com deficiência.
O “Romance de Camilo”, narrativa de Aquilino Ribeiro, deu-me a conhecer Jorge, o filho especial de Camilo, e a dedicação de Camilo por esse filho muito especial.
Jorge era o filho com comportamentos diferentes das crianças da sua idade, comportamentos desajustados às pessoas e ao meio social onde estava inserido.

Naquele tempo, a segunda metade do século XIX, ainda não havia deficiência mental, tudo era concebido e avaliado por doença mental.
Nesse tempo ainda não havia educação especial para crianças e alunos especiais, que só nasceu no início do século XX, em França, como novidade e coisa rara, com poucas expectativas.
Nesse tempo, os casos especiais eram explicados por aquilo que se conhecia e se sabia dos pais, A genética e a hereditariedade acorriam a explicar os casos especiais, ao gosto do “tal pai, tal filho!”.
Também os poderes divinos e poderes estranhos eram chamados para explicar esses casos. Os pecados dos pais, as vidas desregradas de antepassados, que andavam por aí e reencarnavam como castigo para redimir vidas dissolutas de outros tempos, tudo isso era chamado para explicar casos de doenças, de deficiências, de deficiência mental.
Jorge, o filho de Camilo e de Ana Plácido, sob a visão de Aquilino, carrega uma larga diversidade de estigmas pelas designações daquele tempo: era paranoico, anormal, doido, louco, idiota, mentecapto, “uma lástima” … Designações negativas, extremamente depreciativas.
Nem uma só vez aparece a designação de deficiência.
Aquilino dá-nos a conhecer Jorge pelos relatos que Camilo deixou em cartas aos amigos, relatos marcados pelo sentir de um pai angustiado.
Não deixa de ser uma história de amor. Uma história de ansiedades como a de muitos outros pais que têm filhos especiais, naquele tempo e agora.
Jorge, o primeiro filho de Camilo e de Ana Plácido, nascera a 26 de Junho de 1863, dentro do período considerado em vigência de matrimónio de Ana Plácido com Manuel Pinheiro Alves, que falecera a 13 de Julho desse mesmo ano. Como não correra nenhum processo de rescisão de paternidade, era para todos efeitos filho legítimo de Pinheiro e seu sucessor direto.
A família, radicada em Seide, na propriedade que tinha sido de Manuel Pinheiro Alves, ficou constituída por Camilo, Ana Plácido, os filhos Manuel, este do casamento de Ana com Pinheiro Alves, Jorge, filho adulterino, e Nuno.
Aquilino dá-nos esta entrada que nos permite ver no filho Jorge as marcas de deficiência mental: “Foi uma matação para Ana Plácido instruir Jorge nas primeiras letras. Pode calcular-se o estremecimento doloroso com que percutia a paranóia do filho ao vê-lo esgarrado da regra dos seus ensinamentos, inscrevendo e apagando-se logo a pobre lavra mental de paciência”.
A mãe escondeu de Camilo as limitações de seu filho. “Com inigualável recato foi, por outro lado, velando de Camilo a anomalia. A mãe avaliou-lhe bem o fundo da voragem, ia ele fazer 5 anos. Camilo apenas deu conta já ele espigadote, quando a penugem do buço começa a aloirar nos lábios dos rapazes”.
A deficiência mental, ou défice cognitivo, manifesta-se cedo, em criança, pelos atrasos no desenvolvimento, pelas dificuldades de aprendizagem. Ana Plácido reconheceu cedo, quando da aprendizagem das primeiras letras.
Camilo deixou este desabafo: “O meu filho ficou definitivamente doido. Miragens, alucinações dos ouvidos e da vista, inconsciência de si próprio, ódios implacáveis a determinadas pessoas, depressões”.
Que tinha lido os especialistas e que receava sair doido dessas leituras: “Meu pai, minha avó materna e duas minhas tias morreram doidas. Meu filho está assim desde os 5 anos. A mãe sabia-o e ocultava-mo.”
Uma explicação com recurso aos antepassados, à genética, à hereditariedade.
Camilo teve conhecimento era ele já espigadote. Era deficiência ligeira, com possibilidades de ser educável e ter um desenvolvimento próximo da normalidade. Mas à época não havia ensino nem para os ditos “normais”, muito menos para os ditos “anormais”.
Aquilino reconhece que “era uma tristeza para os pais ver como as comissuras se lhe cerravam; o olhar entenebrecia e se tornava fixo, obsesso ou desconfiado, reflexo cromático da treva interior. A boca ao mesmo tempo endurecera, sem deixar nenhuma graça ao sorriso. Estereotipava-se nele a reversão do racional, com a infinita mobilidade de feições”.
Aquilino reconhece que apesar dessas limitações, Jorge “não ficou estranho a certas aptidões de que o homem, em contacto com gente culta, é susceptível, e que se manifestaram de modo apreciável. O pai, levado nas asas do seu amor, celebrou-as como portentosas. Eram apenas rudimentos sem continuidade. Tal a sua propensão para a música e o desenho. A verdade é que, de flauta na boca, tocava as modinhas corriqueiras que ouvia, com ouvido solerte porventura, mas com execução tão incorrecta que os sonidos ásperos e sibilados arrepiavam e punham os perus da capoeira em violenta e cacarejada cólera”.
Pondo em causa as aptidões para a música, Aquilino acrescenta que o mesmo acontecia com a sua vocação para o desenho:
“De lápis em punho copiava os bonecos e figuras que via nos jornais. Se tentava fazer obra original, casas, paisagens, saíam escorços grosseiros ou infantis”.
Também no desenho e na pintura, Jorge, avaliado por Aquilino, não passava de uns “escorços grosseiros e infantis”.
A vida de Jorge e de Camilo seriam diferentes, se ao tempo houvesse escolaridade para estas crianças.

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